Endometriose e álcool: será que estamos fazendo a pergunta errada?
Uma das coisas que mais me chama atenção quando leio pesquisas sobre endometriose e álcool não é o resultado dos estudos, é a forma como a pergunta foi construída. Grande parte da literatura científica tenta responder algo próximo de: "Mulheres que consomem álcool têm mais endometriose?" Quando olhamos os resultados, encontramos associações estatísticas entre consumo de álcool e diagnóstico de endometriose. Algumas revisões sistemáticas mostram um aumento modesto do risco relativo em determinados grupos, mas como pesquisadora de comportamento e saúde da mulher, fico com a impressão de que estamos tentando responder a pergunta errada.
Para quem convive com a doença, o que realmente importa não é saber se mulheres com endometriose bebem mais ou menos do que mulheres sem endometriose, as perguntas que parecem mais relevantes são outras: "O álcool aumenta de fato a dor? Em qual quantidade? Existe diferença entre consumo ocasional e frequente? O efeito muda conforme a fase do ciclo menstrual? Existe diferença entre pacientes com acometimento intestinal, ovariano ou profundo? Algumas mulheres são mais sensíveis que outras? O impacto aparece na dor, na fadiga, nos sintomas intestinais ou na qualidade de vida?" Curiosamente, essas perguntas aparecem muito menos na literatura do que seria esperado. Isso expõe um desafio comum na pesquisa científica: a qualidade das respostas depende diretamente da qualidade das perguntas.
Quando observamos os mecanismos biológicos, existe plausibilidade para que o álcool influencie sintomas em algumas pacientes: o metabolismo do álcool envolve processos inflamatórios, estresse oxidativo e alterações hormonais que também estão presentes na fisiopatologia da endometriose. Mas, plausibilidade biológica, não é a mesma coisa que evidência clínica, e é justamente aí que existe uma lacuna. Hoje temos mais estudos avaliando 'a associação entre álcool e diagnóstico de endometriose' do que estudos avaliando 'o que acontece depois que uma paciente com endometriose consome álcool'. Eu vejo esse tema como um exemplo clássico de um problema que aparece em várias áreas: muitas vezes estamos medindo o que é 'mais fácil medir' e não, necessariamente, 'o que gera a melhor tomada de decisão'.
A pergunta não deveria ser apenas "quem bebe tem endometriose?", talvez a pergunta mais útil seja "o que realmente acontece com o organismo, a funcionalidade e a qualidade de vida de mulheres com endometriose após o consumo de álcool?" São perguntas diferentes.. e perguntas diferentes produzem evidências diferentes.